Decupagem
(IAC, 2018)


No vocabulário cinematográfico, decupagem refere-se a três diferentes momentos de um trabalho. O último deles é a operação de estruturar uma continuidade, que chamamos de filme, por meio da montagem de fragmentos compostos por sequências de imagens previamente captadas. Na outra ponta, o termo se refere à concepção antecipada de todo o trabalho, um desenho detalhado de como poderão ser feitos a captação e o posterior encaixe das várias partes-sequência na montagem, procurando antever o resultado final. Também designa-se como decupagem o conjunto de escolhas feitas na etapa intermediária desse processo, a filmagem das sequências que, por seu turno, recortam espaços em pedaços de tempo, às vezes transformando o roteiro previsto.

A noção de decupagem, significando a ação de produzir continuidades a partir de recortes, poderia caracterizar sumariamente a extensa produção de Iole de Freitas, em mais de quatro décadas de atividade artística. Desde os anos 1970, seu trabalho se desdobra em continuidades que, em boa parte, vivem de sua disposição entrecortada. Da faca que avança rompendo um tecido, numa passagem de um de seus filmes daquela época, até os desvios que tubos metálicos e placas de policarbonato impõem a si mesmos, recortando os grandes espaços onde se instalam enquanto se lançam vigorosamente neles, em obras mais recentes. Nesses termos, pode-se pensar também nas sequências fotográficas em que um corpo se entrega ao olhar, apenas na medida mesma em que se reflete em fragmentos ou ameaçado de corte; nas esculturas em que os mais diversos materiais industrializados se esforçam para encadear suas diferenças; no entrelaçar complexo de telas e fios metálicos de seus relevos ou nas novas esculturas de aço que, como várias de suas instalações, interrogam-se sobre até que ponto o atravessamento de formas em contraposição chega a constituir um ser.

Iole também decupa minuciosa e incansavelmente o que intenciona produzir. Mas permitindo-se alterações de percurso durante o confronto direto com as propriedades dos materiais que utiliza nas obras. E em função de sua situação, isto é, do leque de relações que elas e os espaços em que se encontram estabelecem, modificando-se reciprocamente. Nesse constante ir e vir, o desenho, em suas mais diversas maneiras, parece ser o principal instrumento de condução, decupando o fazer – a rápida notação de uma ideia apenas vislumbrada, a procura repetida da melhor impulsão de uma curva e de seu ponto exato de corte numa peça tridimensional, o detalhamento técnico de uma improvável junção de materiais, o comentário gráfico de uma instalação realizada, e mais uma série de casos diferentes. Associados a outros documentos da artista sob a guarda do IAC, muitos dos desenhos de Iole possibilitam entrever a intuição e o raciocínio vertidos no trabalho, que revertem-se, para ela e para nós, em obras – incluindo desenhos. No entanto, assim como obras quando prontas não são, em si, um fim – dado que é justamente quando sua vida pública começa – aqueles desenhos não devem ser tomados como exatos testemunhos de origem. Entre anotações, projetos, estudos de elaboração variada e o que já obteve o estatuto de obra, tudo na fluidez tensa da produção de Iole de Freitas parece visar como destino as articulações do próprio movimento. 

João Bandeira

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