O livro Iole de Freitas – corpo/espaço apresenta um panorama da obra e da linguagem da artista, ao longo de 40 anos, em imagens, textos e outros materiais que antecedem ou acompanham o processo da criação de suas obras. São eles estudos, esquemas, esboços, anotações e desenhos. 

O livro foi organizado por Paulo Venancio Filho, editado por Isabel Diegues e está disponível pela Editora Cobogó.


Uma artista da vanguarda europeia 

 O trabalho de Iole de Freitas surge numa época de eventos radicais e conturbados afetando várias esferas da vida e da sociedade modernas e em novo centro artístico europeu: a Milão dos anos 1970. Quando Paris vivia do passado, Londres gerava uma cultura pop e Berlim estava dividida por um muro, Milão concentrava uma nova energia artística que relacionava artistas de gerações diversas como Lucio Fontana, Piero Manzoni e os emergentes da Arte Povera. Naquele momento histórico, generaliza-se um vasto repertório de experiências, reivindicando uma variedade de processos, técnicas e materiais até então marginais à modernidade artística. Surgem as práticas heterodoxas, inovadoras, experimentais que vão caracterizar a arte contemporânea. Nada está proibido, tudo é permitido; eram as palavras de ordem, às quais cada artista respondia da sua maneira, encontrando para si o seu processo específico, único mesmo, de trabalho. E não só o processo, as técnicas, os materiais, as formas etc.; sem limites, normas, regras, multiplicam-se as linguagens e as possibilidades de investigação artística. E é nessa época que Milão volta a se conectar, senão a liderar as tendências de vanguarda europeias. É um contexto estimulante ao qual Iole responde, se integra e é aí uma participante efetiva dessa renovação artística.

Iole absorve imediatamente a urgência transformadora do ambiente ao qual reage com sua investigação inicial, seus primeiros trabalhos em filme e fotografia. O registro fotográfico, os filmes experimentais, o uso heterodoxo da câmera fotográfica e cinematográfica estavam na ordem do dia de inúmeros artistas – a arte ingressava transversalmente na cultura da imagem reproduzida com seus processos inovadores. Imediatamente Iole faz da imagem reproduzida o seu meio investigativo, o registro cinematográfico/fotográfico era o meio de análise objetiva das ações, gestos e movimentos carregados de tensão, ansiedade e temor.2 Constrói uma situação na qual se filmava/fotografava ela mesma em isolamento, observando-se como ninguém, fechada em si, para estar consigo e se afastar de si – uma interseção entre body art, performance e filme experimental.


As imagens obtidas são reflexos projetados numa superfície que reflete ou absorve: vidro, tecido, espelho, parede; é nelas onde o corpo se projeta e se exterioriza. É onde a artista se vê – testemunho e resultado do momento decisivo em que se expõe despro-tegida, absolutamente indefesa, mas ativa e atenta. A difícil e conturbada exposição do corpo é vivenciada, enfim, na sua resistente não-passividade. Talvez seja daí que derivem as tortuosas forças que, mais tarde, vão se incorporar às suas esculturas – a experiência corpórea, íntima e pessoal e também tão profundamente coletiva do trabalho de Iole. Relutante, intensa e verazmente relutante, diante da fotografia, o corpo não cede facil-mente à sua apropriação como objeto de exposição, a sua realidade “exponível” é travada e problematizada. Tal situação, aparentemente contraditória, constrói uma intimidade só para ser violada, e o seu desfecho é o registro em filme e fotografia. Este simultâneo ocultar e revelar – uma só e mesma operação – onde cada fotografia além de ser um registro é a condensação de um esforço corporal, de um literal corpo a corpo com a câmera. À Iole de Freitas não interessava somente se colocar diante da câmera e se abandonar imóvel a distância exigida. Ao contrário, sua intenção era reduzir a distância, estabelecer uma relação de confronto, trazer a própria câmera para o interior da experiência, torná-la, por assim dizer, uma extensão de seu corpo. Assim ela se fotografava, antivoyeuse de si mesma. Trazida para uma proximidade inédita, plenamente participativa, a câmera é o “outro” que, de fora, vê o “dentro”, internalizada na própria experiência. Invasora e intimi-dante, ela é um testemunho intruso, ameaça que ao mesmo tempo desvela; não só a câmera registra certas situações e ações, como impõe a sua presença; é um olho exterior assumido imaginariamente tal uma presença efetiva e não mais o simples objeto inofensivo das cenas domésticas e familiares, é esse “outro” do qual não se consegue escapar.De início mal reconhecemos quem está nessas imagens que se projetam e refletem em superfícies diversas: paredes, espelhos e tecidos. Mal identificamos esse corpo que se dá a ver como se escondendo, num movimento de retração esquivo, fugindo da exposição e deixando-se expor à luz. De tal experiência só poderiam resultar imagens desfiguradas, deformadas, quase irreconhecíveis e que ainda, ao aparecer, se mostram agressivamente acanhadas. A imagem do corpo surge amorfa, polimorfa, líquida, uma mancha indefinida. Em expansão e se contraindo, fluida e instável. Ou se deixa ver apenas através de fragmentos. Um pé, por exemplo, ou partes do corpo estilhaçado no espelho. São imagens que procuram escapar também de outro limite: a folha retangular do papel fotográfico que as aprisiona.A qualidade das imagens retém o efeito expressivo da técnica precária do Super-8, e é assumida pelo trabalho. A disponibilidade íntima e doméstica do Super-8, acessível, de fácil manuseio, dispensando assistentes ou técnicas especializadas, possibilita uma entrega franca e total da artista à câmera; faz dela um olho seu, externo, protético, extensível, que a domina e é por ela dominada. Portanto, o registro fílmico, além do registro documental, é a expressão da própria vivência que se realiza na obra. Introjetada, a câmera participa, vive, sem ela não há obra; a experiência é mais que uma performance, uma ação para si e para ninguém, para todos e para nenhum. Tal situação instaura uma atmosfera psicológi-ca tensa, inquieta; e a agressividade latente que projeta tem algo de expressionista, sem, entretanto, nomear, definir, indicar o que quer que seja. A artista olha para a câmera com a surpresa de se ver olhando. Dois objetos: o espelho e a faca são introduzidos na cena cons-truída. Ambos, espelho e faca, reduplicam a câmera, também produzem fragmentos, cacos reais; aquilo que a câmera realiza tecnicamente: slices fotográficos, flashes incômodos e reveladores, cortes no tempo/espaço da vivência experimental – life slices. Não há como não lembrar do gesto de Fontana com a lâmina na mão frente à tela. Essa poética do corte de, através dele, ir além, libertar o plano, está para Iole muito mais na metáfora de libertar espaço para corpo, ir além de si, expondo a tensão, o temor e a surpresa. Tal como um olho exterior, através do qual não se vê, e do qual se oculta e se mostra, e ao mesmo tempo se integra, a câmera acha-se intimamente presente na experiência, copartícipe.

Podemos dizer mais: ela aparece como presença denunciada. Estamos longe dos procedi-mentos fotográficos usuais e da naturalidade com que submetem os objetos. O que parece se processar é a tentativa de corporificar diretamente uma cena psíquica. O espelho e a faca são objetos comuns, embora o seu simbolismo possa dar margem a uma interminável interpretação desses objetos. O campo é vasto e o lugar comum, uma armadilha. Entretanto, no estrito processo de produção do trabalho, eles aparecem com um sentido claro: a faca e o espelho são uma espécie de câmera fotográfica ou cinemato-gráfica. A câmera é essa faca-espelho que reflete, corta, fragmenta e aprisiona a imagem. Quando Iole, com a faca, quebra o espelho, está “fotografando”, realiza no espelho o que a câmera faz nela; liberta-se. Espelho e faca – os elementos ao mesmo tempo reais e sim-bólicos que a artista utiliza como contrastantes e ameaçadores – metaforizam aquilo que a fotografia realiza no plano da imagem: cortes, fragmentações, desmembramentos.A fotografia corta e recorta a realidade, um pedaço daqui, outro dali, esfaqueia a realidade. O que se passa ali, frente a frente, a faca imaginária e a faca real, se não uma espécie de duelo, de enfrentamento entre duas realidades – elo e duelo. O espelho é também uma espécie de faca, assim como a câmera corta e recorta a realidade refletida, duplica-a e faz da câmera seu duplo. Diríamos que Iole quer sentir, tocar aquela presença que só se revelava na imagem, aquele “outro” que correspondia e reagia aos seus gestos e ações. 

GLASS PIECES, LIFE SLICES, 1975 Sequência fotográfica
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